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BikeAholic
GeralReportagem · · 8 min de leitura

A ciência do Bike Fit: as lições de Borut Fonda que mudam a forma como pedalas

Do conhecimento acumulado à biomecânica dos melhores ciclistas do mundo: o que o Fórum Internacional FOSP Bike Fitting ensina a quem pedala na estrada, nos trilhos ou no dia a dia.

Luís Martins, Borut Fonda e Tiago Aragão no Fórum Internacional FOSP Bike Fitting, em Vila Nova de Famalicão.

Muito mais do que bicicletas

Há muito mais no ciclismo do que bicicletas de sonho, gramas a menos, números de potência e classificações de domingo.

Há pessoas que dedicam décadas a compreender o corpo humano em esforço. Investigadores que colocam em causa dogmas antigos. Treinadores focados em interpretar dados reais. E especialistas que passam milhares de horas a observar ciclistas, a testar soluções e a aprender com aquilo que nem sempre corre como previsto.

Mas há algo que torna esse conhecimento verdadeiramente transformador: a capacidade e a vontade de o partilhar abertamente com quem pedala.

Foi esse o grande valor do FOSP International Forum – Bike Fitting, realizado a 17 de outubro de 2026, em Vila Nova de Famalicão.

Num encontro dedicado ao posicionamento na bicicleta, à fisiologia e à biomecânica, o BikeAholic esteve presente para acompanhar as discussões. Encontrámos ali muito mais do que teoria de laboratório: encontrámos respostas a dúvidas que quase todos os ciclistas enfrentam e princípios práticos que desmontam mitos comuns.

Três olhares complementares sobre o ciclista

O Fórum juntou três perspetivas que raramente se cruzam no mesmo palco. Quando especialistas desta craveira explicam o que medem, porque o medem e quais são os limites de cada método, todo o ciclismo ganha — desde quem compete ao mais alto nível até quem só quer desfrutar de 50 quilómetros no fim de semana sem dores nas costas ou nos joelhos.

Luís Martins (FOSP Portugal)

Pioneiro na criação e organização de eventos de ciclismo de enorme sucesso em Portugal. Em setembro de 2023 iniciou a formação especializada com Borut Fonda e, em abril de 2024, abriu o estúdio Who's Fit. O reconhecimento do seu trabalho e da sua formação traduz-se no estatuto de primeiro franchising mundial da FOSP, passando o estúdio a designar-se FOSP Bike Fitting Famalicão. Na sua intervenção, retratou a evolução do Bike Fitting desde os métodos empíricos até à tecnologia e ao rigor atuais.

Luís Martins (FOSP Portugal) ao púlpito, em Vila Nova de Famalicão.

Tiago Aragão (CTAD)

Treinador de ciclismo de nível III, fisiologista do exercício e fundador do CTAD — Centro de Treino e Avaliação Desportiva (2009), Tiago Aragão é um dos treinadores portugueses com maior experiência e ligação ao ciclismo.

  • Licenciado em Desporto e mestre em Treino de Alto Rendimento pela Universidade do Porto, com a dissertação «Caracterização do Ciclista de Estrada Português».
  • Acompanha ciclistas desde 2002 — de atletas amadores e equipas de formação a estruturas profissionais e de BTT.
  • Formador da Federação Portuguesa de Ciclismo, treinador certificado TrainingPeaks e com certificação em avaliação fisiológica INSCYD.

No Fórum, trouxe a ligação à fisiologia e ao treino estruturado: a posição na bicicleta tem de dialogar com as capacidades metabólicas e musculares de cada ciclista, para que o rendimento seja real e sustentável.

Tiago Aragão (CTAD) ao púlpito, em Vila Nova de Famalicão.

Borut Fonda (FOSP)

Antigo atleta de BTT de competição, investigador e especialista em biomecânica, Fonda construiu um percurso que une a ciência de ponta ao desenvolvimento de ferramentas de avaliação para ciclistas.

  • Concluiu o doutoramento na Universidade de Birmingham, focado no controlo da bicicleta e na influência da posição e experiência do atleta.
  • É coautor de artigos de referência em revistas como o Journal of Sports Sciences sobre métodos cinemáticos e biomecânica no ciclismo.
  • Trabalha no apoio a ciclistas profissionais desde 2012 e colabora com referências mundiais como Tadej Pogačar desde 2019.

O detalhe mais marcante da sua passagem por Famalicão não foi o currículo: foi a clareza com que demonstrou que os princípios aplicados à elite mundial servem exatamente para resolver as dores e a fadiga do ciclista amador.

Borut Fonda (FOSP) ao púlpito, em Vila Nova de Famalicão.

O caso extremo: 4,5 cm que mudaram uma carreira

O nome do atleta — vencedor do Tour de France e do Giro d'Italia — não foi divulgado por questões de ética e privacidade. Fonda relatou que este ciclista profissional de topo enfrentava dores de tal forma severas após as etapas de contrarrelógio que ficava incapacitado de pedalar no dia seguinte, colocando em risco a continuidade da sua carreira ao mais alto nível.

O ciclista já tinha feito imensos bike fits, sempre com outros profissionais, e nenhum surtiu efeito. Quando chegou pela primeira vez a Borut Fonda, a decisão foi recomeçar a avaliação do zero: com recurso ao software e à aquisição de dados, foram feitos vários testes e experiências, até encontrar uma base que hoje permite ao atleta voltar a competir aliando a qualidade e a performance. Desde então, é Borut quem acompanha o atleta e os colegas de equipa.

A intervenção biomecânica resultou numa correção de aproximadamente 4,5 centímetros no conjunto de apoio e na substituição de componentes específicos. O desfecho surgiu sob a forma de uma mensagem de alívio: «Salvaste-lhe a carreira» — com o atleta a renovar contrato no circuito WorldTour por mais três épocas.

A lição é direta: se um vencedor do Tour e do Giro precisa de recomeçar do zero quando o corpo e a carreira mudam, o comum dos mortais também precisará.

O teu corpo aos 20 não é o mesmo aos 30, 40, 50...

Um bike fit não é um carimbo para a vida. Com os anos, a flexibilidade, a força, as articulações, o trabalho do dia a dia e até pequenas lesões antigas mudam a forma como assentas na bicicleta. Por isso, fazer reavaliações periódicas não é um luxo: é a forma de ajustar a bicicleta ao corpo que tens hoje, e não ao que tinhas há dez anos.

1. O Bike Fit não é uma tabela matemática

Durante anos vigoraram fórmulas estáticas: multiplicar a altura do cavalo por 0,883 ou alinhar a ponta do joelho com o eixo do pedal através de um fio de prumo. Estas fórmulas serviram de ponto de partida no passado, mas ignoram a flexibilidade, a assimetria articular e a dinâmica muscular de cada pessoa. Uma bicicleta não se ajusta a uma fita métrica; ajusta-se a um corpo em movimento.

2. O ciclista parado não é o ciclista a pedalar

A avaliação dinâmica é indispensável. Em 2014, um estudo publicado por Fonda e pelos seus pares comprovou discrepâncias significativas entre as medições dos ângulos articulares feitas com o ciclista imóvel e as medições recolhidas em movimento contínuo sob carga real. O padrão de pedalada altera-se com o esforço e com a fadiga.

3. «Sem medir, estamos a adivinhar»

Esta foi uma das frases mais fortes deixadas por Borut Fonda. Quantos ciclistas já trocaram de selim três ou quatro vezes à procura de alívio, sem sucesso? O mapeamento de pressão em tempo real demonstra que a causa da dor muitas vezes não é o modelo do selim em si, mas sim a inclinação, o recuo ou até o suporte dos pés, que sobrecarrega zonas indevidas. Tomar decisões com base em dados de pressão elimina o método cego da tentativa e erro.

4. Força no pedal: nem toda a energia empurra a bicicleta

Há uma fronteira clara entre gastar energia e transformá-la em andamento. A eficácia mecânica depende de como e quando a força é exercida em cada fase da rotação da biela. Tentar «puxar o pedal para cima» ou imitar técnicas alheias sem adaptação anatómica acaba, na maioria dos casos, por gerar fadiga muscular precoce sem qualquer ganho de velocidade.

5. O corpo habitua-se ao erro — mas isso não significa que esteja bem

A um participante que perguntou se quem pedala há 20 anos sem queixas graves precisa de uma avaliação, a resposta foi equilibrada: o corpo tem uma enorme capacidade de compensação adaptativa. No entanto, adaptação não é sinónimo de eficiência. Muitas vezes, vícios posturais antigos desgastam silenciosamente tendões e articulações ou travam a evolução desportiva. Não se deve confundir ausência de queixa aguda com uma postura correta.

6. Os dados nunca substituem o que sentes

Gráficos milimétricos, câmaras de alta velocidade e sensores de pressão são ferramentas preciosas, mas de nada servem se o ciclista não se sentir bem em cima da máquina. Fonda insistiu que cada alteração biomecânica tem de ser validada pelas sensações de quem pedala. O Bike Fit moderno é uma conversa informada e contínua entre o ciclista, o técnico e as métricas.

Do arquivo histórico à inteligência artificial: o novo passo no Bike Fit

Borut Fonda revelou ainda que a FOSP acumulou, ao longo de cerca de 17 anos, um arquivo histórico de avaliações biomecânicas. O projeto recente passa por sistematizar esse arquivo e aplicar-lhe análise de dados e inteligência artificial, para detetar padrões e correlações que apoiem as decisões dos técnicos no terreno.

A tecnologia continuará a ser um acelerador e um apoio à decisão — sem nunca substituir a sensibilidade, o olhar clínico e a experiência humana de quem está a ajustar a bicicleta.

Borut Fonda apresenta «17 years of data»: o arquivo de quase duas décadas de avaliações da FOSP a alimentar um novo projeto de análise com inteligência artificial.

O caminho faz-se partilhando conhecimento

O ciclismo em Portugal precisa de mais encontros como este. Precisa de pontes sólidas entre o meio académico, os profissionais de saúde e treino, e a comunidade de ciclistas que todos os dias enche as estradas e os trilhos.

Fica expressa a vontade de ver nascer em 2027 a segunda edição do Fórum, alargando ainda mais este debate.

Até lá, a mensagem central é simples e clara: antes de gastares centenas de euros no próximo componente ultraleve, olha primeiro para a forma como o teu corpo assenta na bicicleta. O conforto é a base da performance e a garantia de que vais continuar a pedalar com prazer durante muitos anos.

Procuras um especialista para a tua bicicleta?

Se sentes desconforto nas tuas voltas ou queres afinar a tua posição com apoio qualificado, consulta as referências e profissionais no nosso diretório: explorar especialistas de Bike Fit em Recomendados.

O Fórum em vídeo

Revê os melhores momentos do Fórum Internacional FOSP Bike Fitting no vídeo oficial da organização.

Vídeo: FOSP — Fórum Internacional FOSP Bike Fitting. Direitos de autor reservados ao autor original; publicado no Instagram oficial. Ver original no Instagram

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